sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Bêbado



Semana passada fui a um casamento de um amigo em Amargosa, uma cerimônia bonita, um casal feliz que com certeza seguirá por bons caminhos. Na hora da Homilia o padre fala do primero milagre de Jesus, quando transforma agua em vinho e a festa do casamento continua. Sem sombra de dúvida é na festa profana que se concentra quem vai a um casamento, os comes e bebes, as músicas, os sorrisos, enfim, a farra…. mas o caminho é outro, é conjunto.

Cito o casamento para florear o fato. Depois de findada a festa, fui pro hotel e dormi, acordei um tanto ressacado e fui procurar um restaurante com uma comida caseira, uma galinha Capira, um carneiro guisado, para despertar a mente e pegar a estrada de volta para Salvador em condições.

A estrada para Amargosa é uma estrada bonita, com muitas curvas e um verde encantador, imagens que nos embriagam pela beleza campestre. Pois bem, depois de almoçarmos, partimos para estrada, eu e o poeta João Sereno, e logo nas primeiras curvas, cruza de um canto para outro da estrada a figura de um bêbado, cortando a pista numa cadência etílica acelerada, João na hora, diminue a velocidade, dizendo que o cidadão deu uma Transversal Cortante. Gostei do termo e fiquei “matuteando” um verso.

Já em casa, na TV, as notícias: Uns comemorando o titulo do campeonato estadual, outros chorando, outros tantos embriagados em conflitos pelas ruas, como se aquele embate fosse mudar o resultado. Vidas perdidas. Um homem anunciava como se pudesse e tivesse o direito de ceifar vidas, em nome de uma segurança que ele mesmo ameaça pelo poder do fogo, que o mundo não tinha mais o que temer, Osama está morto. Está? O terrorismo capital ainda impera. Outro homem comenta uma festa irreal, onde plebeus se iludem com uma alegria de monarca, vidas vazias de imagens compradas.

Fiquei comparando a transversalidade dos ébrios, que se embriagam em doses distintas pela vida a fora.

Tem muito sóbrio embriagado cortando as estradas desse mundo véi de meu Deus pela contramão do tempo.

Um homem numa transversal cortante
Perdeu o seu tempo e a prosa bacana
Foi trocando os passos, separando a cana
E titubiou em ser, ser errante
Vi sua presença insignificante
Tombando nas curvas, tateando o ar
Sua vil figura a cambalear
Formava a imagen da descompostura
Vagando a esmo essa criatura
Brigava com as pernas pra chegar ao lar

Procurando em vão apoio pros braços
Se encostava ao vento e tombava no chão
Sem muito argumento, lamentava em vão
Seguia no rumo pendendo outros traços
Sem nenhum limite, cheio de embaraços
O ébrio se perde sem compreender
Uns se alcolizam querendo sofrer
Uns alcolizados pela hipocrisia
Outros tantos passam de vida vazia
Vão se embriagando no falso poder

O homem infeliz vai tombando à estrada
Da sua palavra ninguém se convence
A sua plateia será de circense
Comprando seu riso noutra gargalhada
Partindo do zero pra chegar ao nada
Os embriagados perdem seu caminho
E mesmo com tantos ao lado, é sozinho
Vai se viciando nessa solidão
Um bêbado sobrio desce à contramão
Perdido no tempo do seu desalinho.

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